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Médico pode parar de atender paciente que não paga? Saiba o que a lei diz
Dr. Carlos L. Oliveira03 de fev. de 20255 min de leitura

A inadimplência de pacientes é um problema real para médicos e clínicas particulares. Quando um paciente deixa de pagar pelas consultas e procedimentos realizados, surge a dúvida: o médico pode se recusar a continuar o atendimento? O que a lei diz sobre isso?
O tema envolve direitos e deveres tanto do profissional quanto do paciente. De um lado, há o direito do médico de ser remunerado pelos serviços prestados. De outro, o paciente tem garantias legais para não ter seu tratamento interrompido abruptamente. A resposta, portanto, não é tão simples e depende do contexto de cada caso.
Segundo Dr. Oliveira, advogado especializado em direito da saúde, “o médico tem o direito de cobrar pelos seus serviços, mas a forma como isso é feito precisa estar dentro dos limites éticos e legais. Caso contrário, ele pode ser alvo de processos e até de sanções pelo Conselho Regional de Medicina.”
O que a lei diz sobre o atendimento médico e a inadimplência?
No Brasil, a relação entre médico e paciente é regida por diversas normas, incluindo o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e o Código de Ética Médica do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O CDC protege os pacientes contra práticas consideradas abusivas, como cobranças vexatórias ou constrangimento público. Já o Código de Ética Médica, em seu artigo 36, estabelece que o médico não pode abandonar o paciente sem garantir a continuidade do tratamento, principalmente em casos de urgência ou quando a interrupção puder comprometer a recuperação da pessoa.
Isso significa que um médico não pode simplesmente interromper um tratamento essencial devido à falta de pagamento, especialmente se o paciente estiver em estado grave ou necessitar de acompanhamento contínuo. No entanto, em situações onde a inadimplência persiste e o tratamento não envolve risco à vida, o profissional pode buscar alternativas para resolver a questão sem comprometer sua própria estabilidade financeira.
Quando o médico pode interromper o atendimento?
Apesar da proibição do abandono de paciente, existem situações em que o médico pode, sim, se recusar a continuar o tratamento. Isso pode ocorrer nos seguintes casos:
Se a interrupção do atendimento não colocar o paciente em risco: O profissional pode optar por não renovar consultas ou procedimentos eletivos caso o paciente esteja inadimplente.
Se houver possibilidade de encaminhamento para outro profissional: O médico pode indicar outro especialista ou unidade de saúde para dar continuidade ao tratamento.
Se for um atendimento particular, sem urgência ou emergência: Procedimentos estéticos, consultas de rotina e atendimentos que não impactam a saúde imediata do paciente podem ser suspensos em caso de inadimplência.
No entanto, qualquer decisão deve ser tomada com cautela e respaldo jurídico, para evitar problemas futuros.
Como médicos podem cobrar uma dívida sem ferir princípios éticos?
A cobrança por atendimentos prestados é um direito do médico, mas deve ser feita de maneira ética e respeitosa. Algumas estratégias seguras incluem:
Uso de contratos bem elaborados: Deixar claro no início do atendimento os valores e condições de pagamento pode evitar conflitos futuros.
Notificação extrajudicial: Enviar um aviso formal ao paciente lembrando do débito pode ser um primeiro passo antes de recorrer a medidas mais severas.
Acordos flexíveis: Em alguns casos, oferecer opções de parcelamento ou negociação pode ser uma solução mais eficaz do que levar a cobrança para a Justiça.
Ação judicial de cobrança: Se todas as tentativas amigáveis falharem, o médico pode ingressar com um processo para garantir o pagamento devido.
Dr. Oliveira ressalta que “o fundamental é evitar práticas abusivas na cobrança. Médicos que constrangem ou expõem pacientes podem ser processados por danos morais e responder por infrações éticas.”
O médico pode negativar o nome do paciente inadimplente?
A negativação do nome do paciente em órgãos como SPC e Serasa é possível, desde que respeitadas as exigências da legislação. Para isso, é importante que o médico ou a clínica tenham um contrato claro e assinado, prevendo essa possibilidade.
Contudo, essa prática pode gerar repercussões negativas e deve ser adotada com cautela. Além disso, em casos de tratamentos médicos contínuos, a negativação pode ser questionada sob o argumento de que o profissional está limitando o acesso à saúde.
Interromper atendimento pode gerar processos contra o médico?
Se um médico interromper um tratamento essencial de forma abrupta e o paciente sofrer danos por isso, ele pode responder por abandono de paciente, configurando falta ética e até mesmo negligência.
Por outro lado, se a suspensão do atendimento for feita de maneira adequada, com aviso prévio e encaminhamento para outro profissional, o médico não corre riscos legais.
Casos de disputa podem gerar processos administrativos no CRM, além de ações cíveis e até criminais, dependendo das circunstâncias. Para evitar problemas, o ideal é sempre buscar suporte jurídico antes de tomar qualquer decisão que envolva a continuidade ou não de um tratamento.
O que fazer para evitar problemas com inadimplência?
Para reduzir as chances de enfrentar dificuldades com pacientes inadimplentes, os médicos podem adotar algumas medidas preventivas:
- Exigir pagamento antecipado em consultas particulares: Essa prática evita inadimplência em atendimentos pontuais.
- Ter contratos bem elaborados: Um documento assinado pelo paciente esclarecendo valores e formas de pagamento pode servir de respaldo jurídico.
- Utilizar sistemas de cobrança eficazes: Ferramentas automatizadas que enviam lembretes sobre pagamentos podem ajudar a evitar atrasos.
- Manter uma relação transparente com os pacientes: Explicar claramente as condições de pagamento e eventuais políticas da clínica pode reduzir conflitos.
A inadimplência é um problema sério que afeta a estabilidade financeira de muitos médicos e clínicas. No entanto, qualquer medida tomada para resolver a questão deve estar dentro dos limites legais e éticos.
Como destaca Dr. Oliveira, “o melhor caminho sempre será a prevenção. Com uma boa estrutura jurídica, médicos podem reduzir significativamente os riscos de inadimplência e evitar conflitos legais desnecessários.”
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